segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Homenagem a um imortal: Paulo Freire, 90 anos



“Educar é impregnar de sentido o que fazemos a cada instante”
(Paulo Freire)

Reconhecido internacionalmente, Paulo Freire, o mais famoso educador brasileiro, criou em 1960 o método de alfabetização para adultos. Tinha a pretensão de alfabetizar 5 milhões de adultos mas, veio a ditadura militar e ele foi exilado do Brasil. Morreu de enfarte aos 75 anos.

 O grande homem que levou o nome do Brasil para o mundo no campo da Educação Popular; nasceu em Pernambuco, em 19 de setembro 1921 na cidade do Recife. Foi alfabetizado pela mãe, que o ensina a escrever com pequenos galhos de árvore no quintal da casa da família. Com 10 anos de idade, a família  mudou para a cidade de Jaboatão. Na adolescência começou a desenvolver um grande interesse pela língua portuguesa. Com 22 anos de idade, Paulo Freire começa a estudar Direito na Faculdade de Direito do Recife. Enquanto cursava a faculdade de direito, casou-se com a professora primária Elza Maia Costa Oliveira. Com a esposa, tem teve cinco filhos e começou a lecionar no Colégio Oswaldo Cruz em Recife.
No ano de 1947 foi contratado para dirigir o departamento de educação e cultura do Sesi, onde entra em contato com a alfabetização de adultos. Em 1958 participa de um congresso educacional na cidade do Rio de Janeiro. Neste congresso, apresenta um trabalho importante sobre educação e princípios de alfabetização. De acordo com suas idéias, a alfabetização de adultos deve estar diretamente relacionada ao cotidiano do trabalhador. Desta forma, o adulto deve conhecer sua realidade para poder inserir-se de forma crítica e atuante na vida social e política. 
No começo de 1964, foi convidado pelo presidente João Goulart para coordenar o Programa Nacional de Alfabetização. Logo após o golpe militar, o método de alfabetização de Paulo Freire foi considerado uma ameaça à ordem, pelos militares.Viveu no exílio no Chile e na Suíça, onde continuou produzindo conhecimento na área de educação. Sua principal obra, Pedagogia do Oprimido, foi lançada em 1969. Nela, Paulo Freire detalha seu método de alfabetização de adultos. Retornou ao Brasil no ano de 1979, após a Lei da Anistia. 
Durante a prefeitura de Luiza Erundina, em São Paulo, exerceu o cargo de secretário municipal da Educação. Depois deste importante cargo, onde realizou um belo trabalho, começou a assessorar projetos culturais na América Latina e África. Morreu na cidade de São Paulo, de infarto, em 2/5/1997.
A Rede de Educação Cidadã, não só do Estado do Ceará , mas de todo o Brasil, pauta suas ações na metodologia crítico-freiriana, com atividades formativas realizadas por meio da vivência teórico-metodológica (em círculos de Culturas que permitem a leitura do mundo, o aprofundamento teórico e a elaboração de estratégias de ação: a prática reflexiva) têm possibilitado a re-criação permanente do legado de Paulo Freire em espaços como oficinas, encontro intermunicipais, cursos processuais e contínuos de educação popular,  grupos de estudos e de trabalho, intercâmbios, como também a participação em seminários, debates e campanhas. 


   “Não basta saber ler que Eva viu a uva. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.”

Não poderíamos deixar de homenagear este ícone maior da nossa educação, que muito lutou para uma sociedade mais humana, viva, sem deminações, como também de compartilhar com todos e todas (educadores populares, sociasi, movimentos, militantes, ONG’s) que sonham e lutam pelo mesmo ideal de sociedade cearense, nordestina, brasileira, humana!

 “Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão”

Alguns ensinamentos de Paulo Freire:
“Não há saber mais ou saber menos: Há saberes diferentes.”
"A Educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tão pouco a sociedade muda"
“Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo.”
“Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso, eu amo as gentes e amo o mundo. E é porque amo as pessoas e amo o mundo, que eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade.”

Obras do educador Paulo Freire:
• A propósito de uma administração. Recife: Imprensa Universitária, 1961.
• Conscientização e alfabetização: uma nova visão do processo. Estudos Universitários – Revista de Cultura da Universidade do Recife. Número 4, 1963: 5-22.
• Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1967.
• Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1970.
• Educação e mudança. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1979.
• A importância do ato de ler em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez Editora, 1982.
• A educação na cidade. São Paulo: Cortez Editora, 1991.
• Pedagogia da esperança. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1992.
• Política e educação. São Paulo: Cortez Editora, 1993.

sábado, 17 de setembro de 2011

A Nossa forma de se organizar está em prol do Projeto Popular de Nação

Luiziânia, 17 de setembro de 2011.

Iniciamos o segundo dia do encontro embalados por um mantra de saudação ao dia e seus elementos e fazendo memória aos heróis e mártires brasileiros e latino americanos, dentre eles o destacamos o mártir  cearense Frei Tito de Alencar.
Como encaminhamento do dia anterior, as regiões trouxeram á plenária a socialização dos trabalhos em grupo que diz respeito a organicidade da Rede nas regiões.
Seqüenciando os trabalhos, aprofundamos teórico e conceitualmente a organicidade e as experiências históricas com a assessoria de Euclides Mance – Solidarius, no intuito de fomentar e entender como isso se relacionam o projeto político e metodológico da Recid.
Após uma exposição analítica sobre organicidade histórica de movimentos de lutas e suas organizações, o assessor dialoga, junto com os educadores do encontro, as socializações/apresentações das sínteses dos grupos, com o aprofundamento teórico sobre o PPP e o PPB.
No período da tarde, acontecerá trabalhos por grupos mistos que terão como missão construir e consolidar as diretrizes organizativas da Recid a partir da avaliação e dos seus acúmulos (PPP, PNF, Planejamentos estaduais...).
Para findar as tarefas do segundo dia, haverá plenária para apresentação e debate em torno da consolidação das propostas com o Assessor Euclides Mance.
Na noite... como de celebração da colheita, dos acúmulos e aprendizados, teremos uma noite cultural solidária com partilha dos estados.
“Na Gramática Política, libertação popular não tem objeto direto, mas sujeito composto.” (Euclides Mance)
Recid Ceará   

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Ceará participa da 2ª Reunião Ampliada da Recid

Luiziânia, 16 de setembro de 2011.

Inicia-se hoje na chácara do CIMI,  Luiziânia -GO, a Segunda Reunião Ampliada da Recid com representantes da Comissão Nacional, Talher Nacional e 01 Educador da Recid de cada Estado brasileiro. O objetivo da reunião é construir as diretrizes organizativas da Rede, à luz da caminhada, dos processos vivenciados (PPP, PNF, Planejamento estaduais) da conjuntura e do aprofundamento em torno da organicidade e levantar propostas para o 11º Encontro Nacional.
 Pela manhã, vivenciamos um forte momento de mística onde trouxemos á tona os nós da Rede, os entraves políticos e pedagógicos que entravam os processos populares rumo ao projeto contra hegemônico de nação. Seduzidos pela assessora Eliane Martins - RS (Movimento de Mulheres Empregadas - RS) fizemos um momento de cochichos motivados pelas seguintes questões: como estamos vendo o movimento do contexto brasileiro nos últimos anos? A partir de quais referenciais fazemos este olhar (com que óculos estamos olhando?). Após compartilhar as conversas nos grupos, a Eliane Martins, faz uma leitura analítica da conjuntura brasileira a partir do referencial do Capitalismo versus Mundo do trabalho.
No final da manhã nos aglutinamos por macrorregiões para analisarmos se a leitura conjuntural dialoga com os processos vivenciados nos Estados e em que aspectos e, como a Recid pode incidir a partir da conjuntura posta.
Á tarde:
  • Partilharemos os diálogos/reflexões das regiões e indicaremos que caminhos a analise e a realidade das regiões nos apontará para  fortalecer o poder popular - desafios e perspectivas;
  • Proposta de vídeo da Equipe de Comunicação da Recid;
  • Realizaremos os processos políticos-pedagógicos dos estados, olhando para nossos planejamentos, a gestão, a comunicação, mas claro, com foco na organicidade e sua dimensão política, orientados pelas perguntas:
  1. nossa forma de organização enquanto rede contribui para a efetivação dos nossos objetivos?
  2. fortalece as lutas e o diálogo com outros movimentos?
  3. nossa forma de organização dialóga com o PPP e PPB e os fortalece?
Á noite os estados terão um momento com CAMP e Talher para esclarecerem dúvidas de gestão do novo convênio.


" De nó em nó a Recid constrói seu projeto popular"

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O PERGUNTADOR, O ESCUTADOR, O ACOLHEDOR E DIALOGANTE JESUS:

Cura de um Rapaz Possesso (Mc 9, 14-29 )
(ver também Mt 17, 14-21; Lc 9, 37-43)

“Ao chegarem perto dos discípulos, viram ao redor deles uma grande multidão e escribas que discutiam uns com os outros. A multidão toda, mal viu Jesus, comoveu-se e acorriam para saudá-lo”, (Mc 9, 14-15). Diferentemente de Mateus e Lucas que narram o mesmo fato, mas o iniciam com maior clareza dos sujeitos e do lugar, Marcos os deixa muito indefinidos.

            Marcos no texto dos versículos 14 a 29 do capítulo nove de seu evangelho, (Mc 9, 14-29), apresenta um Jesus com quatro características fortes. Um Jesus, perguntador, escutador, acolhedor e dialogante. E tudo isso, nos leva a reconhecê-lo como um pedagogo. O texto começa com duas das principais características do Jesus apresentado no Evangelho de Marcos. a) Jesus acompanhado dos discípulos e b) Jesus cercado pela multidão que dele sempre se aproximava. Logo no versículo 16, antes de ser se quer abordado por alguém, Jesus já toma a iniciativa da conversa e formula a primeira e motivadora pergunta, “Que discutis com eles?”, (v 16). Essa pergunta é fruto da capacidade observativa de um bom pedagogo. Aqui já se apresenta o que podemos chamar de a pedagogia da pergunta. Porém, Jesus não apenas pergunta, mas escuta atentamente toda a narrativa do anônimo do meio da multidão que, apesar de não responder à pergunta feita por Jesus, aceita sua provocativa interrogação. Sai do anonimato, apesar de permanecer sem nome, pois é apresentado apenas como pai, e se torna o principal narrador da história. E logo em seguida lhe traz suas queixas. “Mestre, eu te trouxe o meu filho; ele tem um espírito mudo”, (v17). E em seguida descreve com detalhes os tormentos do filho. “O espírito apodera-se dele em qualquer lugar, atira-o no chão, e o rapaz espuma, range os dentes e fica enrijecido”, (v 18a). Em seguida, diante da escuta atenta e paciente de Jesus, o homem faz uma queixa importante. “Pedi a teus discípulos que o expulsem e eles não tiveram força para fazê-lo”, (v18b). Opa! Fica evidente aqui o mestre da escuta. E se apresenta a pedagogia da escuta de Jesus.
            O Jesus perguntador e escutador revela-se também indignado. Capaz de indignar-se. Repreende duramente seus discípulos por sua incapacidade e fraqueza. “Geração incrédula, até quanto estarei junto de vós? Até quando terei de suportar-vos?”, (v 19b). É significativo perceber que Jesus não se revolta com seus discípulos apenas, mas se dirige a toda a geração. Sua reação parece revelar uma pedagogia da indignação. Dar até para imaginar a sua expressão ao pronunciar estas palavras. Até quando vão depender de mim? E em seguida ordena. “Trazei-mo”, (v 19b). O próximo passo parece revelar a autoridade de Jesus. “Mal viu Jesus, o espírito pôs-se a agitar o rapaz com convulsões; este, caindo no chão, rolava, espumando”, (v 20). Novamente Jesus recorre à pergunta para continuar sua ação. Marcos nos mostra um Jesus interessado, compadecido e querendo saber os mínimos detalhes. Cheio de compaixão. Assim nos diz Marcos. “Jesus pergunta ao pai: Faz quanto tempo que isto lhe acontece? Ele disse: desde a infância”, (v21). E, como quem sabe que será ouvido, o pai descreve detalhadamente o histórico do filho. “Muitas vezes o espírito o tem jogado no fogo ou na água para fazê-lo perecer”, (v 22a). E faz uma declaração em forma de pedido mais que contundente para Jesus. “Mas, se podes alguma coisa, vem em nosso socorro, compadecido de nós”, (v 22b). O Jesus apresentado por Marcos se mostra um pedagogo por excelência. Aproveita a situação e as informações adquiridas no diálogo estabelecido, para somar às suas perguntas, as suas escutas, a sua compaixão, o seu poder dialogal. E responde com autoridade. Aproveita a ocasião criada para mostrar o poder de Deus, a força da fé e os conflitos que cercam a opção pelos que sofrem. “Se podes!... Tudo é possível para quem crer”, (v 23). Diálogo que fica concretizado na resposta humilde e quase contraditória do pai do menino. “Eu creio! Vem em auxílio da minha falta de fé!”, (v 24). Uma pergunta nos vem imediatamente. Qual a diferença para Marcos entre crer e ter fé?
            Só agora, depois das perguntas, da escuta, do diálogo estabelecido, da relação construída e de ter entrado na história e na vida do pai que lhe pedia ajuda, Jesus, como que dizendo, nós fizemos isto, dar o desfecho desejado ao caso. Assim nos diz Marcos. “Jesus, vendo a multidão agrupar-se em tumulto, ameaçou o espírito impuro: Espírito surdo e mudo, eu ordeno, sai deste rapaz e não entres mais nele!”, (v 25). As palavras parecem carregadas de indignação e compaixão. É relevante constatar que a ordem é sair e nunca mais voltar. Nunca mais entrar. A riqueza de detalhes de Marcos no texto é impressionante. Vejamos esta descrição. “O espírito saiu com gritos e violentas convulsões. O rapaz ficou feito morto, tanto que todos diziam: Ele morreu”, (v 26). Aqui, se dar algo próprio do Jesus-Deus-Homem. Na próxima ação, se revela mais uma pedagogia de Jesus. A pedagogia da acolhida soma-se à pedagogia do cuidado e da compaixão e são levadas ao máximo. Vejamos esse Jesus humano e companheiro que somente Marcos nos apresenta. “Mas Jesus, tomando-lhe a mão, o fez levantar-se e ele se pôs de pé”, (v 27). Pegar na mão, tocar, ajudar alguém a se levantar quando está caído, eis o sentido de ser cristão. Mais que dar algo ou alguma coisa é dar-se ao outro. O texto aqui estudado termina com outra característica também comum em Jesus, na relação e na pedagogia que Ele usava para com seus discípulos. Os colóquios com os discípulos. Assim apresenta-nos Marcos este momento. “Quando Jesus voltou para casa, seus discípulos perguntaram-lhe em particular: E nós, por que não conseguimos expulsar este espírito? Ele lhes disse: Esta espécie de espírito, nada pode fazer sair, a não ser a oração”, (v 28-29). De novo, uma pergunta não quer calar. Os discípulos não rezavam? Não rezaram neste caso? Por isso é que não conseguiram expulsar aquele espírito? Ou ainda, o que é oração, para Jesus? Que relação tem essa frase de Jesus com aquela onde Ele diz: Geração incrédula? Eles não rezavam, ou não tinham fé quando rezavam? Os discípulos são para Marcos, os beneficiários de um ensinamento particular, são testemunhas privilegiadas dos milagres maravilhosos que Jesus operou. Mas, como parece querer nos mostrar Marcos, são fracos e fraquejam, na fé e na ação. Na libertação dos que sofrem. Chama-nos a atenção que, no versículo 22a, Marcos usa os elementos fogo e água como sinais de morte.

Perguntas para atualizar o texto:
1 – A exemplo de Jesus, a igreja escuta o clamor dos que sofrem e são atormentados e perseguidos? Ou, ao contrário, a exemplo dos Discípulos, como igreja, nos mostramos incapazes?
2 – Como igreja seguidora de Jesus, continuadora de sua missão, nós costumamos acolher e pegar na mão dos caídos e ajudá-los a se levantarem?     
3 – A igreja sabe ouvir e dialogar diante dos conflitos e das necessidades dos fiéis que a ela recorrem? Se sim, como se dar este diálogo? Se não, por quê?

Curitiba, 08 de Setembro de 2011.
João Ferreira Santiago.
Teólogo, Poeta e Militante.
Mestrando em Teologia pela PUCPR.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Recid Ceará participa e colabora com o Grito dos Excluídos, Seminário em defesa da Vida O Meio Ambiente grita em dores, pobreza, lixo, queimadas, agrotóxicos...


O debate em torno em torno de uma consciência ambiental preenche o cenário mundial já alguns anos. Nesses últimos tempos o planeta terra geme em dilacerantes dores. A Campanha da Fraternidade 2011, ecumênica, desenvolvida em face dos constantes fenômenos naturais ocorridos pelo mundo, muitos, segundo alguns ambientalistas, decorrentes do denominado aquecimento global resultante em tsunamis, terremotos, maremotos etc., os quais têm deixado o mundo perplexo e preocupado.
                Os gritos saídos da terra apontam as dores sofridas pela criação: são rios d venenos derramados no chão, que contamina os alimentos, a água e são consumidos pela população. Cada brasileiro consome em média 5.2 litros de agrotóxicos por ano.
                As queimadas – comuns no nosso sertão, poluem o ar, degradam a terra e a torna improdutiva, infecunda. Estas queimadas têm reduzido o espaço para plantio na terra que é concentrada nas mãos de poucos.
                O lixo produzido é o resultado de uma sociedade do consumismo, da falta de cuidados os poderes públicos com o maio ambiente e com as pessoas.
                Na Região Centro Sul do Estado do Ceará está clara a ausência de uma política de saneamento e adequado tratamento de resíduos sólidos, o que temos tristemente observado em quase toda a totalidade de municípios é a presença de “lixões a céu aberto”, locais inadequados para o depósito destes mencionados resíduos, somando-se ainda problemas como queimadas, desmatamento e uso abusivo de agrotóxicos, todos fatores degradantes da natureza (Pe. Manfredo de Oliveira – Diácono da Pobreza – Doutor em Filosofia e Professor da UFC).
 Diocese de Iguatu, através de sua Comissão de Justiça e Paz, conjuntamente com instituições e sociedade civil organizada, sensibilizada e ciente de sua missão, a partir de uma constatação da triste realidade do descaso ás questões ambientais, sentiram a necessidade de realizar um seminário, com estudos da realidade socioeconômica – diagnóstico da pobreza – não podendo esta ser dissociada dos aspectos ambientais mais gritantes.
Espera-se que este seminário se constitua em instrumento eficaz para a discussão em vista, sobretudo, da prevenção de possíveis danos ambientais, além de despertar urgentemente uma consciência ambiental para resolução dos problemas apontados, buscando sempre assegurar para as gerações, no presente e no futuro, um meio ambiente ecologicamente equilibrado, direito fundamental a resguardar a dignidade da pessoa humana. (Diocese do Iguatu)

O Seminário configurou-se num forte momento onde os movimentos, militantes e pastorais ecoaram seus gritos e lamentos por toda a região Centro Sul do Estado do Ceará.

Retalhos de Uma Realidade Mal Costurada

Somos filhos e filhas de uma geração que literalmente deu a vida pela liberdade. Seremos nós a geração que dará a liberdade pela vida? E se formos, que vida e que liberdade? A geração que deu a vida pela liberdade buscava organizar-se em grupo, coletivamente, reunia-se em torno de uma ideia e de um sentimento. De um líder. De um desejo comum, de um sentido maior. O que nos distancia e nos faz seres isolados, egoístas ao extremo hoje? O que nos fragmenta e nos faz seres tão desorientados? Falamos de diálogo e agimos como se isto nos fizesse seres dialógicos e dialogantes. Enchemos as estantes, os corpos e a vida de deuses e nos dizemos religiosos. Acreditamos em polvos, magias, slogans e promessas vãs e dizemos que temos fé. Vendemos o voto em troca das mais variadas moedas e quinquilharias convenientes e nos dizemos democráticos. Consumimos indiscriminadamente, enchemos o planeta de lixo e nos autodefinimos como cidadãos. Convivemos lado a lado, quase que em harmonia com a miséria, com a pedofilia, com a corrupção e com a injustiça e nos dizemos, muitas vezes, Cristãos.
            A última eleição para o governo do Paraná, por exemplo, deu-se sob o reinado da censura. Proibiu-se a divulgação das pesquisas e a conveniência entre os poderes executivo e judiciário mostrava sua face. Aparentemente, a julgar pela reação da população à época, nada de anormal nisto. A mídia e a apatia da sociedade aceitaram quase passivamente. Com que direito poderemos nos surpreender com a pesquisa recente, publicada na Gazeta do Povo no dia 24 de Julho de 2011, onde 70% da população se sente menos segura que há cinco anos? Onde 19% têm medo de sair de casa? 39% têm medo de ser assaltado?  Nesta mesma eleição, a população deu uma enxurrada de votos para um candidato a deputado, cuja principal promessa de campanha para acabar com a violência, era reduzir a maioridade penal. Teve apoio maciço, inclusive de conselheiros (as) tutelares. Com que direito nos surpreenderemos com os dados da pesquisa que diz que para 56% da população o maior problema enfrentado hoje pelos Paranaenses é a (in) segurança pública?  
            Tenho participado de muitas conversas, de debates e de diálogos nos meios acadêmicos e populares. Tenho ouvido frequentemente de pessoas com padrão de vida e nível intelectual acima da média da população, coisas de arrepiar. Dizem que a violência é na Região Metropolitana. É lá que ocorre a maioria das mortes, homicídios e assassinatos. Segundo a pesquisa o percentual de pessoas que consideram a (in) segurança pública, o maior problema do Estado, por regiões, é: Curitiba, 62%; Região Metropolitana, 58%; interior, 54%. Ninguém, independente da região, tem o que comemorar. A capital, no entanto, vive um estado de calamidade pública e moral.
            Vivemos, aliás, no Estado do Paraná, um estado de calamidade pública e moral. O poder executivo se esconde por detrás das nuvens mal cheirosas dos poderes judiciário e legislativo. A Assembléia Legislativa não consegue respirar afogada em dejetos, disputando nas manchetes dos jornais agora, páreo a páreo, com a câmara de vereadores da capital. Quem contribui mais para o lamaçal moral das instituições? Parece ser essa a olimpíada do momento. A copa da imoralidade. A população nunca foi tão órfã de exemplo de decência e presa tão fácil para enganadores da fé que vendem de tudo! De amuletos a espaços em programas religiosos nos horários de rádio e televisão, a preço de ouro. Chegando a vender também curas e milagres. Assim, o nepotismo, o favorecimento, a corrupção, segunda geração na família da compra de votos, correm soltos.
            Não vejo muita diferença entre o nepotismo, direta ou veladamente, nos cargos públicos, exercido por políticos parlamentares, e gestores públicos em geral e o que, não raramente, ocorre com a sociedade civil. Em convênios e projetos, igualmente financiados com recursos públicos. Empregar o marido, a esposa, o parente, parece não ser muito diferente. Talvez a diferença seja o volume. A sociedade gere uma pequena parcela dos recursos. Mas copia vícios que reproduzem práticas. É freqüente ver indicado ou “eleito” pela sociedade civil, representantes para conselhos, comissões e colegiados afins, que não abrem a boca nem para pedir comida. Só para que tudo fique como está para depois vermos como é que fica. Como diz o ditado popular. E, lógico, para que, alguém que eu não gosto ou que pensa diferente de mim, não vá. Critica-se o Estado, o governo este ou aquele, mas passa-se a ideia de que a sociedade pode? O pior é o fundamentalismo hipócrita do discurso que legitima tudo isto. Faz-se em nome do coletivo; da Economia Solidária; da Educação Popular; de Paulo Freire; do socialismo; da liberdade; da autonomia; de Deus até. É uma espécie de ateísmo funcional e prático. Moderno?
            O mundo vive uma verdadeira crise de sentido. Torna exigente e exige coragem, inteligência e ousadia dos seres humanos chamados a cuidar deste mundo. Vivemos uma crise de lideranças, de posturas, de profecia e de testemunho. É preocupante ver pessoas que sequer se acham neste mundo bonito e cheio de violências e encantos, dizendo para as outras pessoas como devem ou não viver. Como devem agir. Não conseguem conviver bem nem com a própria família, mas dão aula, mesmo que com outro nome, de bem viver. Querem mudar o mundo, mas se excluem da mudança. É o caso de trazer presente o filósofo Confúcio que, quatro séculos antes de Cristo já dizia, “A natureza dos homens é a mesma, são os seus hábitos que os mantêm separados”. As principais referências intelectuais e religiosas, ainda vivas, com excepcionais exceções, negaram o que disseram há trinta anos atrás. Com palavras ou com gestos. O que esperar ou cobrar de uma geração que não tem referenciais? Que desconhece, sobretudo, a história recente de seu país? Que muitas vezes não sabe nem o nome dos avós?
            Vivemos o momento da mudez. Não do silêncio, porque é o barulho a marca deste tempo. A indiferença faz parte do componente da frieza emocional deste tempo. O tempo da informação, como se dizem aos quatro ventos. Uma pessoa é moralmente destruída no meio da multidão, da “comunidade”, e nenhuma voz se levanta para reclamar, nenhum braço é estendido para apóiá-la ou acolhê-la. Isto eu sei o que é. Vi e vivi de perto. Já não nos importa mais tanto quantos morram, desde que eu esteja vivo.
            Tenho me perguntado e perguntado às pessoas que tenho como referência. O que virá depois deste momento de demência coletiva? Quero acreditar que virá um novo tempo. Mas este tempo que virá precisará de nós que vivemos agora. Sobretudo, este futuro que construímos hoje, precisará de uma educação e de uma religião libertadoras. E isto só será possível com educadores e religiosos autênticos. Que falem menos e tenham mais postura. Que saibam escutar alguém mais além de seu próprio e inflamado ego. Capazes de ir além da resignação. Que sejam capazes de indignar-se com a hipocrisia de falastrões que são incapazes de amar. Amar, eis o caminho e o jeito de caminhar. Quero ver alguém amar sozinho! Quero acreditar que depois do e-mail, virá o e-todo, onde nos veremos e nos trataremos como um todo, sem fragmentações e fatiamentos. 

Curitiba, 24 de Julho de 2011.    
          
[1] João Santiago. É Teólogo, Poeta e Militante. Educador Popular das CEBs no Paraná e Mestrando em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUC/PR.

A Rede Ceará e a Transformações das Relações de Poder - Associativismo Feminil - Vila Mel

A Rede Ceará e a construção do Poder Popular
No exercício da transformação das Relações de Poder!

 Se o ser humano não se descobre cidadão sujeito histórico, até mesmo suas aspirações mais elementares(...) ficam confinadas ao paradigma liberal-burguês. Busca-se apenas a melhoria das condições de vida, o que é justo. Mas não é o suficiente. É preciso modificar também a nossa maneira de pensar, a nossa postura, as nossas atitudes, a nossa escala de valores. Eis o Papel da Educação Popular. Frei Betto”


A Rede de Educação Cidadã do Ceará vem contando, juntamente com seus Educadores, Movimentos, Associações, Organizações Parceiras e Povo, uma história de sonhos, lutas e conquistas assumida, com compromisso, desde o ano de 2003. Atrelada a esta narrativa, o desafio de espalhar a boa nova, na perspectiva da libertação, na empreitada por direitos iguais para todos e todas, na construção de um projeto popular e soberano não só para a federação, mas para o Brasil.
Considerando que o conflito é parte essencial na busca do equilíbrio, temos consciência que essa construção é árdua, passiva de erros e equívocos e é por isso avaliamos cotidianamente nossas práticas para possamos continuar avançando neste seguimento. È esta tomada de consciência que nos permite acreditar que estamos no caminho certo.
A cada dia que passa nos sentimos mais instigados a transformar esta oportunidade de organização e transformação social que a rede de educação nos apresenta, em um instrumento real de mudança.
 É nesse processo de reflexão e amadurecimento que a RECID-CE vem tecendo com linhas de diversos tons, a malha formada por inúmeros atores que balançam a rede no estado do Ceará.
Com isso, a Rede de Educação Cidadã no Ceará – Recid Ceará vem participando e promovendo um processo de mobilização social interventivo que favorece caminhos de democratização das informações que se intercalam com instrumentos e métodos formativos político-culturais, construtivos das políticas públicas e reflexivas na perspectiva das concepções de políticas de Estado, onde a participação dos movimentos populares reacende a história de luta dos povos marginalizados e vulneráveis sócio-política e culturalmente.
Neste contexto, ilustramos mais um importante passo dado rumo ao fortalecimento das consciências crítica, política e cidadã dos grupos que se entrelaçam nesta Rede.
Para tanto é necessário voltar um pouco no tempo, até o mês de julho de 2010, ocasião em que a Recid CE realizou o III Encontro Intermunicipal da Região Centro Sul do estado (município de Jucás) com o tema “A Educação Popular como instrumento de fortalecimento do Controle Social - “Ninguém é sujeito da autonomia de ninguém”. O principal objetivo do encontro era diagnosticar, sensibilizar, fomentar e criar estratégias de Educação Popular para fortalecer os grupos que compõem a Rede e também para os que estão para além dela. Deste encontro saíram alguns encaminhamentos, dentre estes, o de realizar momentos de formação nas regiões e espaços mais fragilizados neste tocante. Neste cenário, um grupo de populares da Vila Mel/Jucás-CE, se destacou devido tamanha necessidade e vontade de sair da situação de opressão vivida.
Com este grupo foram realizados 4 encontros formativos na própria comunidade Vila Mel, além de outros momentos de intercâmbio e visitas de educadores. É notório como os encontros foram figurando passos no caminho do desvelamento, inserção, intervenção e transformação social do grupo.
Sabemos que muito ainda precisa acontecer para que este e outros grupos realmente gestem sua cidadania plenamente ativa, mas já conquistamos algumas vitórias. E hoje, anunciamos o início da concretude desta transformação. Anunciamos que a Vila Mel, terá muito em breve, especificamente nesse dia 11 de setembro de 2011, a sua Primeira Associação de Mulheres.
É muito salutar dizer que a iniciativa partiu das próprias mulheres da Vila Mel. Somos apenas coadjuvantes deste tão significante marco para a comunidade e também para nós, lutadores e lutadoras da causa do povo cearense.
É válido também revelar que a água da qual bebemos para nos orientar foi o nosso PPP, especificamente no seu 10º Princípio. Suas seis diretrizes foram como uma ponte segura que nos ligou a esta transformação.