terça-feira, 2 de outubro de 2012

Uma Rede sempre em movimento popular!



Carta Pedagógica II - Recid Ceará
Ceará, Setembro de 2012
“As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração” (Gaudium Et Spes).

Querida(o)s Companheira(o)s de luta,

Sonhos, luta e conquistas!

No Evangelho narrado por Marcos, Jesus nos interpela “sois sal da terra e luz do mundo” (MT 5, 13-14).  Como discípulos e missionários de Cristo devemos fazer a diferença.
Esta afirmativa nos faz sentir corresponsáveis pela gestação de uma nova civilização que esteja fundamentada na defesa incondicional da vida que promova a justiça, que viva a sustentabilidade e seja fraterna em suas relações.
Partindo desses princípios e convocados pelos desafios que as eleições nos imprime, nós, Educadores e Educadoras da Recid Ceará, juntamente com outros sujeitos da sociedade, como pastorais sociais, sindicatos, associações comunitárias, paróquias, dioceses, professores e universitários, entre outra(o)s,  fomos motivados a vivenciar e construir, em coletividade, um rico período de articulações, mobilizações, debates e proposições em busca da efetivação de um outro projeto de Estado, de desenvolvimento e de vida, que para nós, figura na construção de um Projeto Popular de Nação.
       O que nos motiva e nos une é este sonho de uma efetiva cidadania e a busca por um bem estar social pleno, o que se concretiza na pratica do bem viver, que está na contramão do modelo capitalista de desenvolvimento em curso. Especificamente neste momento, o fio que nos entrelaçou foi a preparação e vivência dos grandes eventos sociais contemporâneos, como o 18º Grito dos Excluídos (18º GE) e a 5ª Semana Social Brasileira (5ª SSB) que, inclusive, foram pautados pela Recid no seu Plano Político, Pedagógico e Organizativo para o triênio 2012-2014, a fim de potencializar as articulações e mobilizações com os movimentos e pastorais sociais.
A ideia central da 5ª SSB que tem como tema “A Participação da sociedade civil na democratização do Estado Brasileiro - Estado para que e para quem?” e lema “Novo Estado, caminho para nova Sociedade do Bem Viver” é discutir e fortalecer o processo de democratização do Estado, compreendendo melhor a realidade que temos, explicitando o ideal que queremos, identificando e criando os meios de democratização do Estado brasileiro. Concomitante a isso, como caminhos para esta transformação/democratização, realizamos o nosso Grito dos Excluídos, que traz como tema “Queremos um Estado a serviço da Nação que garanta direitos a toda população!”, ecoando, em várias cidades do Ceará, em alto e bom som,  os nossos anseios, medos, violências sofridas e a negação dos direitos sociais básicos, que nos coloca em situação de opressão e exclusão.

A maioria dessas realizações se deu na dinâmica de seminários e manifestações de rua, precedidos por um amplo processo de articulação e mobilização iniciados nas comunidades (micro), passando por momentos municipais, que se direcionavam para as microrregiões/dioceses (macro). Contudo as análises/leituras se deram conjunturalmente, mantendo o olhar local, mas sem perder de vista o foco global enquanto estado, nação e planeta, pois, ao mesmo tempo que somos aldeões, somos também planetários.

As discussões foram latentes. Embora, as realidades estejam dentro deste modelo, ao qual negamos veementemente, algo se pôde observar de novo. Novos olhares se misturaram aos velhos e enxergaram coisas diferentes, ou melhor, as mesmas coisas foram vistas de um outro jeito. Os diálogos foram sempre propositivos, com deliberações e encaminhamentos coletivos, em prol de um bem comum. Comum também foi a forma de comunicar nossos acúmulos através de cartas pedagógicas, com escrita simples que realmente se faça entendível a todos os destinatários. Em meio a tantos olhares e reflexões que se projetavam cada vez mais numa única direção, uma certeza: a de que a mudança não será possível, enquanto não propagarmos e efetivarmos um outro jeito de gerir o Estado que temos, enquanto não mudarmos esta forma de Democracia representativa, enquanto os nossos direitos estiverem  apenas no papel e não conseguirmos com que os maus políticos saiam, também da sua “situação de opressão”.

 A 5ª SSB e o 18º GE não só nos intima a pensar no que fazer para que o Estado, de fato, sirva ao bem comum, garanta os direitos econômicos, sociais, políticos e culturais de todos, começando pelos pobres e oprimidos. Eles nos direcionam a uma “medida de ordem democrática de uma nação” e o critério de fidelidade e comunhão com Deus (Mt 25, 31-46).

De igual forma, não pensem que o diálogo foi fácil. O terreno era/é sinuoso demais. Os obstáculos enfrentados foram/são muitos. Dialogar o Estado que temos e o que queremos, num estado onde o atual modelo de desenvolvimento tão propagado por “Ele”, tem como base, os grandes projetos, financiados todos ou em parte, pelos governos: Transposição do Rio São Francisco, Transnordetina, Siderúrgica, Termelétrica, Mineração, Agronegócio, entre outros. Todos chegam às comunidades prometendo melhorar a vida das pessoas, mas o que temos visto é a expulsão das famílias de seus territórios de origem e a negação do direito dessas pessoas. Não fica muito difícil entender a serviço de quem está este Estado: Desenvolvimento para que e para quem?

O modelo de desenvolvimento que faz o Ceará ser o 2º em crescimento econômico entre os estados do Nordeste, não tem se traduzido em melhoria na qualidade de vida da população mais pobre. Vimos que na região Centro Sul, nos 19 municípios que compõem a Diocese de Iguatu, ainda temos, segundo o IBGE, uma população de aproximadamente 250 mil pessoas vivendo em extrema pobreza. Logo, o atual modelo, continua a beneficiar uma privilegiada camada da população, os donos do capital. Para a maioria, fica a precarização das Políticas Públicas e as políticas compensatórias na área da assistência social. As reflexões feitas nos municípios, bem como nos seminários, nos mostraram quão ausente é o Estado na garantia de nossos direitos fundamentais.  Mesmo com esta constatação, ainda foi/é difícil abordar assuntos como as políticas de transferência de renda, como “as bolsas assistenciais” do governo; das Leis da Ficha Limpa e 9840, com candidatos que mesmo sendo flagrados e comprovadamente corruptos, exercendo seus mandatos e pleiteando outros, entre outras barbárie; com uma população carente, em situação de vulnerabilidade social, com o agravante da grande seca que enfrentamos e em pleno processo eleitoreiro, com candidatos fichas-sujas e compras de votos, foi/é árduo, é conflitante para os muitos que passam fome, que sobrevivem dia a dia, que estão ainda a mercê dos neos-coronéis, dos favores e do apadrinhamento. Muitos não continuaram no processo, mas alguns poucos são as sementes para colheita que em breve virá, como os jovens do Levante Popular da Juventude, que se somaram a nós em algumas regiões, principalmente na região Centro Sul, onde estão se fixando a pouco tempo.
O processo desvelou, a muitos, a realidade de um Estado a serviço de poucos, e nos impôs a necessidade de continuar nossas reflexões sobre o Estado brasileiro, construído ao longo desses mais de 500 anos, e trabalhar pela edificação de uma nação igualitária, solidária e comprometida com a vida. Trabalharemos na construção de um Projeto Popular para o Brasil, para que o povo brasileiro possa verdadeiramente interferir nos rumos de seu País.

Queremos um Estado a serviço do povo brasileiro!

Um outro forte e bem sucedido acontecimento que nos marcou neste período foi a construção e realização da 2ª Semana dos Movimentos Sociais do Cariri, dos dias de 17 a 23 de setembro de 2012. Com o Pau D'arco amarelo iluminando, com sua florada, o cenário esquálido da caatinga castigada pela estiagem, a aridez do solo, a escassez d'agua e a esdrúxula campanha eleitoral a nos acometer, mesmo assim não nos impediu de firmarmos nosso compromisso como lutadores do povo. A discussão e os encaminhamentos se firmaram em torno da Campanha Permanente de Combate aos  agrotóxicos (criação do comitê cearense), o impacto dos grandes projetos, a história local nas escolas publicas e privadas (seminário para elaborar política de educação contextualizada), e a realização da 13a. Romaria do Caldeirão do Beato Zé Lourenço (ecos do caldeirão, a luta do povo romeiro simbolizada na mística do toré indígena).
Outras realizações e lutas aconteceram, a citar a economia solidária, onde nos encontramos com empreendimentos, pessoas e entidades ligadas diretamente ao movimento que vem debatendo o marco legal da Socioeconomia Solidária, bem como os preparativos para a V Plenária Nacional de Socioeconoimia Solidária que acontecerá de 9 a 13 de dezembro de 2012, em Luziânia, que contará com a participação e contribuição de Educadores e Educadoras da Recid Ceará.
A insatisfação e indignação de como se gere as eleições, nos conclamou a integrarmos, em alguns municípios, as comissões de ética de mediação de debates entre candidatos.
Ainda, continuamos acompanhando os projetos em Agricultura Camponesa nos municípios de Crato, Altaneira, Potengi, Araripe e Assaré; marchamos, cotidianamente, pelo Parto Humanizado; acompanhamos amorosamente aos grupos de tradição da Cultura Popular; continuamos com processos formativos com a juventude nos espaços rurais e periféricos e, em constante luta pelo empoderamento e cidadania dos menos favorecidos.
São esses, entre inúmeros outros, embates cotidianos que o Capitalismo nos impele e dos quais não podemos fugir, que nos indigna, nos inquieta e fortalece a nossa luta, nos enchendo de esperança abrindo caminhos para a construção do PODER POPULAR, que legitimará o nosso projeto para o Brasil.
 Somos o resultado de nossas escolhas!

Nesta afirmativa e com a certeza do vosso compromisso,
Desejamos um esperançoso e caloroso abraço cearense a toda(o)s!

Rede de Educação Cidadã do Ceará

sexta-feira, 6 de julho de 2012


Carta Pedagógica da Recid Ceará

Ceará, Junho de 2012

“O gênero “carta” (...) estabelece um vínculo imediato entre quem escreve e quem lê. (...) ao mesmo tempo em que pode dirigir-se a um público maior, se dirige a cada um em particular. (...) expõe intimidade e convida a aproximação, à cumplicidade, ao diálogo. (...) não se presta ao discurso autoritário. (...) espera uma resposta, um gesto, a tomada de posição, o engajamento”. (Moacir Gadotti)

Companheiros(as) Educadores(as) Populares da Rede de Educação Cidadã, caríssimos(as) leitores(as),

Saúde, garra e conquistas!

É com animação, entusiasmo e comprometimento com a luta do povo que é, antes de tudo, nossa, que vos escrevemos para denunciar nossa realidade e ao mesmo tempo, indo na sua contramão, anunciar o nosso sentimento esperançoso por um mundo melhor. Denúnciar e anunciar, por entendermos que faz parte da nossa missão “o exercício constante da leitura de mundo que, demandando necessariamente a compreensão crítica dessa realidade, envolvem de um lado, sua denúncia, de outro anúncio do que ainda não existe”. Isso “implica em denunciar de como estamos vivendo e anunciar de como poderíamos viver, um pensamento esperançoso, por isso mesmo. Denunciar a realidade e anunciar um mundo melhor. Crendo que não é possível o anuncio sem a denuncia: dados concretos, leitura de mundo, e a nossa posição em face do que está ou vem sendo feito”.
Para tanto, gostaríamos de iniciar nos valendo da descrição do escritor Moacir Gadotti sobre o gênero carta, justificando o motivo e a importância da escolha pedagógica por este gênero para sistematizar a vivência da Rede no estado do Ceará, expondo, dialogando e refletindo sobre nossas realizações, desafios, limites, avanços e aprendizados neste primeiro semestre de 2012. Esperamos com esta, possibilitar a aproximação, o diálogo reflexivo e comprometido, e o vosso engajamento nas lutas populares, como descreve Gadotti, que não são só nossas enquanto estado, mas única e de todos(as) nós educadores(as) e militantes que anseiam por um Projeto Popular de Nação.   
Nossa caminhada cearense na construção do Poder Popular concretiza-se paulatinamente quando agregamos a nossa luta cotidiana e intensa, parceiros, parceiras e parcerias que se tecem e se arvoram a desafiar e discutir com o povo os grandes “gargalos” que interceptam nossa caminhada.
Desde o ano de 2011 optamos político e pedagogicamente por potencializar os educadores e os grupos de base com formações continuadas e itinerantes a fim de dar corpo, conhecer e dialogar as diferentes realidades regionais que compõem o cenário estadual. Esta dinâmica nos possibilita inserção, diagnóstico, diálogo e intervenção junto aos grupos de base através dos(as) educadores(as) de referencia dos coletivos de cada região.
Neste primeiro semestre de 2012 estamos realizando o nosso 3º Curso de Formação em Educação Popular abordando o tema da Comunicação Popular e os Movimentos Sociais Populares.
Por termos na Educação Popular Crítico-Freireana o diálogo como principal veículo de comunicação. Buscamos e promovemos a comunicação que informa, mas que também forma, como nos diz Freire: “Comunicação é co-participação dos sujeitos no ato de pensar. Implica numa reciprocidade que não pode ser rompida. O que caracteriza a comunicação enquanto este comunicar comunicando-se é que ela é DIÁLOGO, assim como o diálogo é COMUNICATIVO”.
Portanto o curso tem como objetivo construir e efetivar uma Comunicação Popular e Democrática. Comunicação esta que fortaleça os movimentos sociais e que esteja realmente “a serviço” da sociedade indo assim de encontro a efetivação da construção de um Projeto Popular para os(as) brasileiros(as). Com isso “reafirmamos o desejo de transformação e inserção social, consolidando a comunicação como um processo sócio-potico coletivo de construção do conhecimento, de humanização, de diálogo, de relações horizontalizadas e de expressão da diversidade, à luz do seu Projeto Político Pedagógico, com formação prática e ênfase na formação potica rumo à construção de práticas contra hegenicas e ao fortalecimento do poder popular”.
O curso acontece no período de 30 de Março a 26 de Agosto de 2012. É valioso anunciar que a realização dos dois primeiros módulos envolveu parcerias importantes nas regiões Centro Sul e Jaguaribe que os sediaram. No Centro Sul, destacamos a 16ª CREDE/Iguatu, cedendo o seu laboratório de informática e o SINTSEF e a 18ª CRES que hospedaram os participantes durante os dias de formação. No Jaguaribe, tivemos como parceria a Escola Estadual de Educação Profissional Avelino Magalhães.
Mesmo sendo uma atividade da Rede Ceará, anunciamos ainda, a contribuição dos Educadores da Recid Paraíba na facilitação técnica das mídias web-rádio e blog e destacamos a importante participação da juventude, que protagonizaram os dois momentos, participando e interagindo com o processo da educação popular. 
Estamos certos que estes momentos contribuem na formação destes(as) jovens e educadores(as) que se contrapõem e desvelam a realidade,  denunciando as mazelas das grandes mídias que massificam e alienam a sociedade com sua “comunicação plastificada”, excludente e verticalizada.
É com essa óptica e dinâmica que gerimos desde 2011 o nosso fazer pedagógico e político, tanto as oficinas quanto as atividades intermunicipais, dando um único corpo e cadeamento para enredar nossa história, unir e fortalecer nossos fios. 
Outro momento que vale relembrarmos logo no início deste semestre foi o exercício de reavaliação da nossa caminhada no último triênio que constituiu-se como mais um marco na nossa trajetória, pois representou o esfoo de projetarmos o futuro da Rede (2012 a 2014) a partir do acúmulo das nossas experiências e debates em torno da nossa prática pedagica e política.

Olhamos para o nosso planejamento coletivo 2011 e desenvolvemos um processo gradual de avaliação do Programa Nacional de Formação e das Poticas de Comunicação, Gestão e Organicidade, o que resultou num texto que tinha por objetivo sintetizar reflees, propostas e orientar o debate sobre os nossos desafios enquanto Recid para o próximo período. Em janeiro, munido(as) deste texto debatemos no coletivo estadual e, no Encontro Macrorregional, na cidade de Pedro II, no Piauí, vimos brotar, da nossa luta, um novo Nordeste que foi forte rumo ao XI Encontro Nacional grávido do nosso esperançoso futuro problematizado.

Em março, no XI Encontro, Brasília/DF, parimos, num parto normal e coletivo, o nosso Plano Nacional de Formação e as diretrizes das nossas políticas para os anos que se aproximam.
No mês seguinte, abril, definimos os primeiros cuidados com o recém-nascido durante a 1ª Reunião Ampliada 2012, onde na oportunidade, dialogamos com a equipe responsável pela Articulação política da Recid na Cúpula dos Povos encaminhando a participação de 02 educadores(as) por estado, educadores(as) estes(as) responsáveis por articular outros movimentos e comitês estaduais para potencializar a participação popular na cúpula. Outra deliberação foi a decisão de realizar uma roda de conversa sobre educação popular e o bem viver, onde apresentaríamos a atuação direta da Rede em defesa dos biomas brasileiros. Registramos aqui o equívoco da equipe em substituir a apresentação do bioma Caatinga pelo Serrado, não que um seja mais importante que o outro, mas que não nos pareceu uma construção legítima e em rede.
A Rede estadual, na tentativa de cumprir seu papel de articuladora e formadora, realizou atividades de cunho formativo junto aos movimentos, mas não conseguiu dialogar com o Comitê estadual, muito embora tenha tentado inúmeras vezes.
Outra luta que caracteriza a Recid em todo o estado é a mobilização e organização sociais voltadas para o exercício do controle das políticas públicas. Neste tocante muito se foi feito neste semestre. Além da participação nos fóruns e conselhos, em reuniões mensais, participamos, com a proposta de debater e inserir a pedagogia e metodologia da educação popular nos espaços onde se tencionam e disputam o poder, da Reunião Regional dos Conselheiros de Municipais de Saúde, com presença do Conselho Estadual de Saúde – CESAU, o que resultou no convite e participação da Rede no I Encontro Nordeste de Movimentos Populares em Saúde – MOPS, em Fortaleza, com presença dos estados do Pernambuco, Maranhão, Ceará e Bahia e do Representante do Ministério da Saúde, que discutiu a importância da Educação Popular Crítica Freireana e as possibilidades de contribuir com os movimentos populares em saúde.  
Neste semestre, incidimos ainda mais na Luta pela Convivência com o Semiárido, o que não data só deste período, pois histórico, cultural e geograficamente estamos envolvidos. Muito se tem o que anunciar: mudamos nosso pensamento de sermos flagelados, vítimas do infortúnio divino e de sermos produtos da chamada “indústria da seca”, mas ainda existem denúncias a serem feitas e enfrentadas. Este ano fomos assolados por uma violenta seca, considerada uma das maiores dos últimos 50 anos, que agrava a situação das famílias, principalmente as rurais, em todo o estado e, melhor dizendo em todos os estados que compõem o nosso semiárido brasileiro. Mesmo sabendo que não se combate a seca, nos empenhamos, mobilizamos e nos organizamos enquanto movimentos, fóruns, redes e articulações. Algumas das ações concretas deste semestre são a nossa contribuição na construção das cisternas do P1MC, onde com o nosso tom, nos propomos a realizar as formações, com ideias que culminem com um processo mais completo no tocante a socialização do programa, bem com na difusão das políticas públicas que garantem acesso á saúde, educação e moradia. Também estamos fortalecendo a juventude camponesa na produção agroecológica e no acompanhamento das ferias de sócio-economia solidária e na rede de ecoturismo comunitário na chapada do Araripe. Uma grata novidade é que desde o dia 14 de junho, na região do Cariri, estamos firmes na Coordenação do Fórum Araripense de Prevenção e Combate a Desertificação, que elencou priorizar lutas que nos desafiam e nos estimulam a enfrentá-las.
Enfim chegamos á Cúpula com o propósito de negar a chamada “Economia Verde”, proposta pela ONU como um modelo econômico e ambientalmente correto e sustentável, por entendê-la como a nova roupagem do Neoliberalismo e válvula de escape para o Capital se restabelecer. Entendemos a cúpula como “uma atividade que termina em si, mas um instrumento para uma construção mais ampla. Parte de um processo de mobilização internacional e procura avançar na construção de espaços de análise da conjuntura, construção de uma agenda comum e dar visibilidade as verdadeiras soluções vindas dos povos”. Neste tocante e com a proposta de dialogar e contribuir com os demais povos da cúpula, realizamos no dia 19, a nossa Roda de Conversa sobre a “Educação Popular e Bem Viver”, onde dançamos e dialogamos numa ciranda popular, comprometida e amorosa sobre as práticas e conceitos de uma vida “bem-vivida”.
Na MARCHA DOS POVOS, encorpamos e ressoamos em uma só voz, por mais que fosse a várias línguas e sons, um apelo pela vida do planeta. Ressaltando aqui que fomos impedidos de participar do Ato na Vila Autódromo pela parte da manhã do mesmo dia, o que não anulou a grandiosidade da articulação dos movimentos em marcha. Mas, registramos aqui o nosso repúdio.
Foi assim que analisamos o que foi, é e, continuará sendo, se for necessário, o clamor humano e ecológico por um novo projeto para a humanidade e o planeta. Projeto este que nega o Capital em suas várias facetas, inclusive a pintada de verde.
Certos e certas de que “Mudar é difícil, mas é possível” e da necessidade de continuarmos na militância, que nos convoca a cada nascer do sol a lutar pelo anúncio desse mundo sonhado e possível, estamos atentos e fortes na perspectiva de construção do Poder Popular, ousando sonhá-lo, mesmo sabendo que “na verdade, a transformação do mundo a que sonhamos e aspiramos é um ato político e seria ingenuidade não reconhecer que os sonhos têm seus contra-sonhos”.

Cordiais saudações,

Educadores e Educadoras da Rede de Educação Cidadã – Ceará.